CONTOS

PÉTALAS AMARELAS

Uma pequena planta com uma flor com apenas uma pétala, crescia entre as pedras da calçada junto ao edifício cor-de-rosa. Quem me dera não ter sentimentos para não antecipar a sua decapitação pelo fio de nylon da cortadora de mão que se aproximava. A pétala amarela era quase transparente. Se fosse vermelha era um corte ensanguentado no espaço por cima do passeio. Baixei-me, as suas nervuras pareciam a estrutura metálica dum vitral minúsculo, com todas as secções da mesma cor. Quem a pintara? Eu. A planta existia sem mim, mas o seu amarelo não existia sem mim. Era pintado pelos meus olhos e pelo meu cérebro. Como é que um cérebro pinta tão bem a realidade, fechado dentro duma caixa, afastado da luz, sem deixar o amarelo sair dos contornos? Se tocarmos com um dedo no cérebro, ele desfaz-se, no entanto cria mundos dentro de mundos.Quando pegamos num cérebro, verificamos que é mais frágil do que as pétalas que pinta. É mole, parece que se vai desfazer. O que tive na mão, só parecia que se ia desfazer, não se desfazia mesmo, tinha sido preservado de modo a não se desfazer, dando, apesar disso, a sensação de se estar prestes a desfazer. O meu cérebro interpretava-se a si mesmo através daquele outro cérebro.Na noite anterior à visita à galeria de arte onde se encontrava a exposição de esculturas feitas a partir de pessoas mortas, mal dormi. Pelas ruas de Quioto, quando me dirigia para o local, não prestava atenção a nada, não conseguia pensar. Eu planava pelas ruas num vazio cheio de nada. Quando cheguei, crianças duma escola estavam em silêncio absoluto numa sala de espera que dava para a sala da exposição. Faltavam uns minutos para a porta abrir e ninguém falava. Quando a porta por fim se abriu e entrámos, uma figura extraordinária parecia dar-nos as boas vindas. Uma escultura sem pele com todos os músculos ligados as esqueleto apenas por um tendão, parecia acabada de explodir. Os músculos apontavam em todas as direcções, desprendidos numa das pontas. Toda a apreensão que nos havia atingido a todos havia desaparecido. As crianças riam, os adultos comentavam. Pensar que aquelas esculturas haviam sido outrora pessoas vivas como nós, era uma coisa tão distante como a mais longínqua das constelações. Exigia um esforço imenso pensar "estou a olhar para um ser humano". Não nos conseguíamos convencer daquilo que sabíamos. Plastination foi um nome bem escolhido. Podíamos tocar numa das esculturas. O que o tato nos dizia já os olhos haviam dito "é plástico". É plástico mas houve uma altura em que não era plástico, dizíamos para nós próprios. Mas eram apenas palavras. Os sentidos não enganam e eles diziam que era plástico.O cérebro não era plástico. O cérebro era cérebro. A legenda dizia que no cérebro havia sido usada uma técnica de mumificação diferente, de modo a que ao tato a experiência fosse semelhante à de pegar num cérebro mesmo. Ainda tenho a sensação do cérebro na minha mão. Será que estão registados ainda aqui os pensamentos e as emoções que ele criou? Perguntava-me. Se era destro um pequeno ponto do lado esquerdo coordenou a acção de assinar a permissão para uso do corpo para fazer obras de arte. Olhei para esse ponto e pareceu-me ver um brilho, um desejo de eternidade. Olhei para a zona do atelier cerebral das cores, e vi pétalas. Pétalas a serem pintadas de amarelo.

A CASA DAS MÁQUINAS

A casa da quinta tinha a forma dum L. Na parte comprida morava uma família rica que se dedicava à criação de touros para touradas. A família havia arrendado a casa enquanto construía a sua numa quinta próxima. Na parte pequena do L moravam os trabalhadores. O pai do rapaz morava na parte menos importante desta secção, mesmo na ponta, pois não trabalhava para esta família, mas para os donos da quinta, era o guarda florestal. Na época de caça o rapaz maravilhava-se com a actividade dos furões que entravam dentro de um monte gigante de ramos secos da poda das oliveiras, fazendo sair os coelhos. Ele não gostava de caça e fechava os olhos quando um coelho saía a correr assustado e era atingido por tiros de caçadeira. O pai do rapaz não se manteve muito tempo como guarda florestal, uma vez, um caçador ameaçou-o com uma caçadeira. Ficou bastante transtornado e durante uma semana andou desfigurado, pálido e mal falava. Em tribunal não se conseguiu provar nada. O caçador defendeu-se dizendo que tinha sido má interpretação, a caçadeira por momentos, por mero acaso, no meio da conversa tinha apontado, sem intenção, para o guarda florestal.

A mãe achava que o facto de o pai nunca sair com a pistola, o tinha salvo. O rapaz, às vezes, abria a gaveta da mesa de cabeceira e afastava um pouco o pano que enrolava a pistola, apenas para admirar o brilho do metal. O pai tinha gasto todas as balas a treinar e só tinha direito a mais balas no ano seguinte. O rapaz achava que o pai tinha gasto todas as balas para não ter de usar a pistola, ou com medo que ele, com apenas seis anos, se lembrasse de brincar com ela. Nunca brincou, mas uma vez tocou-lhe com o indicador e ficou a admirar a impressão digital que lá deixou. Logo de seguida pegou numa ponta do pano e apagou a marca, com medo que o pai percebesse que lhe tinha tocado.

A horta ficava na base de um monte coberto de cerejeiras japonesas. As cerejas não eram boas para comer, mas na Primavera o monte tornava-se na coisa mais bela que o rapaz havia visto. Sentava-se na erva junto à casa a olhar para o monte cor-de-rosa. Ele não se importava de ficar horas ali, em contemplação, mas a Teresa, uma rapariga da sua idade, indiferente àquela beleza, preferia enfiar-lhe espigas na roupa para o obrigar a despir a blusa.

Do monte nascia um pequeno riacho que em tempos fizera girar a roda de uma azenha agora abandonada. Um dos seus prazeres consistia em enfiar as mãos por entre as avencas, na água fria junto à nascente. Ricardo, já com catorze anos, filho do homem que cuidava dos cavalos, construía pequenos barcos com motores eléctricos retirados dos brinquedos estragados que o filho, de cinco anos, do casal que arrendava a quinta, deitava fora. Passavam horas a brincar com os barcos. Este rapaz habilidoso, que queria ser engenheiro eletrotécnico, tinha uma espingarda de pressão de ar com que apanhava as nozes da nogueira gigante, que fazia sombra no local onde brincavam com os barcos.

─ Qual é a noz que queres que eu deite abaixo? ─ Perguntava o Ricardo. Nunca falhava.

O rapaz admirava o amigo, admirava a sua pontaria e sonhava um dia ter a sua habilidade para fazer barcos movidos a motores eléctricos. Mas este amigo também não era sensível às cerejeiras em flor.

O caminho de terra batida, que ligava a horta à casa, tinha uma fila de ameixieiras japonesas de cada lado. As da direita, de quem sobe, davam ameixas vermelhas, as da esquerda ameixas amarelas. Ele preferia as vermelhas, e gostava delas tanto maduras como naquele ponto em que estão quase maduras, mas ainda estalavam na boca quando lhes dava uma dentada. Estas eram ligeiramente adstringentes, mas ele gostava da sensação.

A meio da subida, à direita, ficava a casa das máquinas onde um gerador carregava um conjunto imenso de baterias que forneciam energia eléctrica à casa. De noite, uma luz no exterior da casa das máquinas, iluminava parte do caminho.

Uma vez, depois do pôr do sol, subia o rapaz o caminho da horta para casa, quando repara numa gota de água numa folha de uma planta, que reflectia a luz da casa das máquinas. Olhou na direcção da luz e reparou que o reflexo na gota, a luz da casa das máquinas e Vénus, se alinhavam numa recta perfeita. Todo o seu corpo foi atingido por uma onda que se propagou da cabeça aos pés. Uma onda que parecia uma massagem que progressivamente o ia relaxando até ficar leve, como se o seu corpo fosse feito duma substância semelhante à das esferas de sementes dos dente-de-leão que costumava soprar. Uma felicidade imensa invadiu a sua alma. Via o mundo e via-se a si mesmo no mundo. Era agente e espectador. Durante quase um mês viveu neste estado. Movia-se e parecia que tudo se movia com ele, olhava para as coisas e parecia que as coisas retribuíam o seu olhar. Todos os sentidos estavam mais apurados. As cores e os odores, tinham o dobro ou o triplo da intensidade. Esmagava plantas com as mãos para absorver os seus odores, olhava as pétalas das flores como se fossem marcas e sinais de qualquer coisa próxima que lhe escapava, de algo que lhe fugia, apesar de estar na sua mão.

As pessoas pareciam deambular adormecidas, pelos caminhos. Estavam sem estar. Pareciam não viver no mesmo mundo que ele. Via-as como se olhasse através de uma janela que dava para uma outra realidade.

Nunca contou a experiência a ninguém nem aos seus pais. Sentia-se sozinho no mundo.

Um mês depois, gradualmente, este estado foi desaparecendo, mas ele nunca mais foi o mesmo, a experiência havia-o transmutado para sempre. A lembrança foi uma luz sempre presente no seu caminho e toda a sua vida foi marcada por ela. Tudo o que fez, desde então, visava voltar a essa experiência.

Um dia, já adulto, tentou contar a experiência a um amigo.

─ Um dia, tinha eu seis anos, subia uma estrada ao crepúsculo e…

─ Não precisas de contar, eu sei.

A CINTA

Haverá uma fronteira que separa os homens dos animais? Numa aldeia isolada, em noites de tempestade, se essas fronteiras existem, são apagadas. Não apenas os homens e os animais, mas tudo, pedras, árvores, fazem parte duma unidade indiferenciada. Dentro e fora são o mesmo, os nossas fantasmas interiores convivem com os exteriores. Viviam os homens nesta indiferenciação ou era eu que os via assim? Ou seria eu quem vivia nessa fusão? O acontecimento que vou contar prova que nenhuma destas hipóteses é verdadeira. O próprio mundo era assim.

Jacinto encontrou um cavalo sem arreios à beira da estrada numa noite com o céu carregado de nuvens. Uma tempestade anunciava-se. O cavalo parecia dócil. Era branco de um branco imaculado. Sobressaía na escuridão da noite, parecendo irradiar luz própria. Na aldeia só havia mulas e burros, os cavalos que o ferreiro ferrava vinham das aldeias vizinhas. O cavalo estava do outro lado da estrada de terra batida indiferente à sua presença. Jacinto piscou os olhos, o cavalo continuava lá. Esfregou-os com as costas da mão, o cavalo não se apagou. Aproximou-se dele e passou-lhe a mão pelo pelo. Não era uma miragem.

Jacinto desenrolou a longa faixa preta, que costumava usar à cintura, passou-a pelo pescoço do cavalo e conduziu-o para o curral onde outrora tinha ovelhas. O dono haveria de aparecer. Fechou o curral e esqueceu a cinta no pescoço do cavalo. Levantou-se de manhã cedo, o cavalo havia desaparecido. Nesse mesmo dia, ao crepúsculo, no caminho da taberna para casa cruzou-se com o Geraldo que vivia sozinho num monte, como um eremita. Colhia plantas que secava em grandes tabuleiros nas encostas do monte. Raramente aparecia na aldeia. O pouco que precisava de comprar, comprava bem cedo na feira, quando havia pouca gente. Vestia de preto e usava um chapéu de abas largas bem enterrado na cabeça, mal se vendo os olhos. Nunca ninguém o viu rir. Mais exacto seria dizer que nunca ninguém lhe viu qualquer expressão. Ao pescoço, como se fosse um cachecol, trazia uma cinta preta com um jota dourado bordado.

─ Essa cinta é minha. Onde a encontraste? Para que a trazes ao pescoço? ─ perguntou o Jacinto.

─ Para que da próxima vez deixes passar quem passa e deixes estar quem está ─ respondeu Geraldo, enquanto devolvia a cinta.